sábado, 2 de outubro de 2010

Dion 01


O Começo




A noite estava escura, tão escura que era difícil notar a presença de um homem parado no meio da rua apenas olhando para o portão da casa a sua frente. Durante algum tempo ele ficou imóvel, até que outra pessoa dobrou a esquina e se aproximou lentamente.
         – Esta é a casa? – ele perguntou.
         – Sim. – o homem parado respondeu.
         – Qual o nome do garoto?
         – Ron.
         – Você quer que eu diga a ele que você é seu pai?
         – Não. É possível que eu não volte de minha jornada, e caso isso aconteça, será melhor se ele nunca tiver me conhecido.
         – Você tem certeza que quer colocá-lo no clã? Isso pode tirar qualquer chance de ele ter uma vida normal.
         – É inevitável que algum dia alguém descubra quem ele realmente é, e caso isso aconteça, ele precisa estar preparado.
         – Amanhã será o primeiro dia de meu filho na escola onde Ron estuda. Ele estará encarregado de treiná-lo.
         – Pensei que você seria o tutor dele.
         – Você não conhece esses adolescentes? Eles aprendem melhor com gente de sua própria idade.
         – Parece que você já pensou em tudo, nesse caso acho que já vou indo. Ainda tenho um longo caminho pela frente.
         – Se as coisas ficarem perigosas, seja prudente e desista desta missão.
         – Não se preocupe comigo. Adeus.
         – Adeus...
         Eles começaram a andar em direções opostas até se perderem de vista.
         Na manhã do dia seguinte o despertador do quarto de Ron tocou, mas, como sempre, ele não acordou e sua mãe precisou ir até lá. Seu quarto nunca estava arrumado, e por isso ela precisava passar por vários obstáculos, dentre eles sapatos e roupas sujas, até se aproximar da cama do garoto.
         – Acorde meu filho, faltam apenas quinze minutos para sua aula começar.
         O garoto levantou assustado no mesmo instante. Ele tinha 14 anos, cursava o primeiro ano do ensino médio, possuía a pele branca, cabelos e olhos castanhos.
         – Droga! Não posso chegar atrasado! Preciso entregar um trabalho na primeira aula. – Ron disse.
         Ele correu para o banheiro, tomou um rápido banho, vestiu seu uniforme às pressas, pegou sua mochila e foi para o portão de sua casa.
         – Não vai tomar café? – sua mãe gritou.
         – Não dá tempo! – o garoto gritou enquanto saia.
         Ele correu com todas suas forças por várias ruas até chegar a uma escola de tamanho médio. Ao entrar em sua sala, ele viu que todos os alunos já estavam sentados e o professor estava dando aula, e, timidamente, foi até sua carteira e começou a anotar em seu caderno o que estava escrito no quadro negro.
         A aula passou lentamente, e apenas quando ela já estava acabando a professora pediu para que todos colocassem seus trabalhos em sua mesa. Em poucos segundos um monte de folhas se formou em cima dela, e quando ela estava prestes a continuar o que estava ensinando antes, o diretor da escola surgiu na porta da sala.
          A professora saiu para conversar com ele e voltou pouco tempo depois acompanhada de um garoto um pouco mais alto que Ron. Ele possuía cabelos negros, olhos castanhos, pele morena clara e usava uma estranha faixa negra em seu braço esquerdo.
         – Este é o novo colega de vocês, o seu nome é Dimon. – a professora disse.
         Ele andou calmamente pela sala até se sentar na cadeira ao lado de Ron.
         – Bem vindo. – o garoto disse.
         – Obrigado, Ron. – disse Dimon.
         – Como você sabe meu nome?!
         – Está escrito em seu uniforme. – ele disse com um pequeno sorriso.
         Mesmo sabendo que aquilo era verdade, Ron deu uma rápida espiada em sua roupa.
         – É verdade. – ele disse com um pouco de vergonha.
         Eles foram interrompidos pela professora, que deu uma bronca por estarem conversando.
         Com o passar do tempo outros professores entraram na sala e ensinaram diferentes tipos de matéria, até que o sinal do intervalo tocou e os alunos puderam descansar um pouco.
         Como estava com um pouco de fome, Ron resolveu comprar algo na lanchonete da escola, mas foi interrompido por Dimon, que se aproximou para falar com ele.
         – Aqui as aulas são sempre difíceis assim? – ele disse.
         – Com o tempo você se acostuma. – disse Ron.
         Eles foram interrompidos por um barulho próximo a eles. Vários alunos estavam se reunindo em uma roda enquanto gritavam sem parar. Dimon andou até lá para ver o que estava acontecendo e Ron o acompanhou.
         No centro da roda havia quatro garotos, um mais novo e três mais velhos. O menor estava levando golpes dos maiores em várias partes de seu corpo.
         – Por que ninguém o ajuda? – disse Dimon.
         – Quem for lá só vai apanhar também. Eles são do último ano. – Ron disse enquanto apontava para os agressores.
         – Você não se enfurece vendo isso?! Você deveria ser quem mais se sente incomodado!
         – Você não me ouviu?! Se eu fosse lá, iria apenas apanhar também!
         – Já chega, vou acabar com isso.
         Ele começou a passar por todos os alunos até chegar ao centro da roda.
         – Vocês, parem com isso agora! – ele disse.
         Eles passaram a prestar atenção apenas no Dimon, deixando o outro aluno correr.
         – Você também quer apanhar? – disse um dos garotos mais velhos.
         – Os únicos aqui que vão apanhar são vocês!
         Os alunos começaram a andar na direção de Dimon quando um professor se aproximou deles.
         – O que está acontecendo aqui? – ele perguntou.
         No mesmo instante todos os alunos que formavam a roda se dispersaram, deixando apenas Ron, Dimon e os outros.
         – Não está acontecendo nada. – um dos garotos disse.
         – Vão para suas salas. O sinal vai tocar a qualquer instante.
         Os três alunos olharam com uma expressão maléfica para Dimon e se afastaram, assim como o professor.
         – Estou decepcionado com você Ron. Você deveria ser a última pessoa nesse lugar capaz de ficar parado após ver aquilo.
         – Do que você está falando?
         Duas garotas se aproximaram, fazendo com que a atenção deles se focasse apenas nelas.
         – Vocês foram muito corajosos. Ninguém nunca enfrentou aqueles caras antes. – uma delas disse.
         – Se todos os enfrentassem, eles não iriam mais ameaçar ninguém. – disse Dimon.
         – Eu nunca havia pensado dessa forma, mas você tem razão, a partir de agora eu também não irei permitir que eles batam em mais ninguém – ela disse.
         Dimon concordou movimentando levemente sua cabeça.
         O sinal do fim do intervalo tocou e todos os alunos começaram a voltar para suas salas.
         – Nós temos que ir. – a garota disse e as duas se afastaram.
         – Aquela era a Sarah, a garota mais bonita da nossa sala. – disse Ron. – Ela nunca tinha falado comigo antes.
         – Por que ela iria falar com um covarde? – Dimon disse com um olhar sério.
         No mesmo instante Ron se enfureceu.
         – Eu não sei quem você pensa que é, mas você não tem o direito de me ofender desta maneira! Eu nem te conheço direito!
         Ele se afastou e voltou com passos rápidos até a sua sala na esperança de não ver Dimon novamente, mas foi inútil, pois o garoto se sentou ao seu lado de novo.
         Durante todas as outras aulas Ron evitou olhar para o lado, e quando o ultimo sinal tocou ele foi um dos primeiros a sair da escola.
         Quando Dimon o chamou de covarde, aquilo o atingiu, pois ele sabia que era verdade. Em toda sua vida, ele nunca teve coragem de enfrentar ninguém. Sempre que algo era exigido dele, alguma desculpa era inventada para acobertar seu medo.
         Enquanto voltava para sua casa, vários pensamentos passavam pela sua cabeça, mas todos eles se dispersaram quando ele estava andando por uma rua deserta e percebeu que um barulho de passos o estava acompanhando.
         Assustado, ele olhou para trás e viu Dimon parado, fitando-o.
         – Por que você está me seguindo? – Ron gritou.
         – Preciso conversar com você. – ele também gritou.
         – Você acha que eu sou burro de conversar com um louco como você?!
         Ele tentou se virar e continuar seu trajeto, mas no mesmo instante se desequilibrou enquanto dava uns passos para trás. Dimon estava poucos centímetros a sua frente.
         – Isso é impossível. – ele sussurrou.
         Ron olhou para trás e confirmou que o garoto realmente não estava mais lá.
         – Eu fui transferido para aquela escola por um motivo Ron, te treinar.
         – Me treinar?!
         – Você não é uma pessoa comum. Assim como eu, você é descendente do grande Emrin Dion, o criador do clã Dion.
         – O quê?!
         – Eu sei tudo sobre a sua vida, desde o dia que você chorou na segunda série enquanto apresentava uma peça de teatro até o último mês, quando pela primeira vez em três anos você conseguiu tirar uma nota maior que oito na escola.
         – Você é algum tipo de perseguidor? Se você ameaçar minha família, vou te denunciar para a polícia!
         – Você já se perguntou o motivo de nunca ter conhecido seu pai? Ele nunca foi te ver porque é um importante membro de nosso clã, e se alguém soubesse que você é seu filho, muitos iriam tentar te matar.
         – Você conhece meu pai?! Então me diga quem é ele, ou onde ele está!
         – Me desculpe, mas eu não possuo esta informação.
         – Então por que você está falando isso tudo?!
         – Apenas para que você acredite em mim.
         – Por que estou falando com você? Você apenas pesquisou sobre a minha vida na internet, ou algo assim, e agora está fazendo uma piada!
         – Pergunte para sua mãe se ela já ouviu falar no nome Dion e veja a sua reação, só então você verá que o que eu digo é verdade.
          Dimon começou a andar lentamente para a direção oposta a de Ron.
         – Te vejo amanhã. – ele disse enquanto acenava com a mão.
         Poucos segundos depois ele virou em uma esquina e desapareceu da visão de Ron.
         Embora o garoto estivesse achando que aquilo era apenas uma piada de mau gosto, ver Dimon falando de seu pai o deixou curioso, por isso ele decidiu que iria falar com sua mãe e saber se aquilo era verdade.
Após chegar a sua casa, Ron notou que o almoço já estava pronto, e como estava com muita fome, apenas jogou sua mochila em seu quarto e correu para cozinha.
         Enquanto ele começava a comer, sua mãe se aproximou segurando um prato cheio de comida e se sentou ao lado dele.
         – Como foi sua aula? – ela perguntou.
         – Boa, um novato começou a estudar hoje. – ele disse.
         – No meio do semestre? Isso não acontece com muita frequência.
         – Sim. Mãe, você já ouviu falar na palavra Dion?
         No mesmo instante ela deixou o garfo que segurava cair dentro do prato, fazendo alguns grãos de arroz voar para fora dele.
         – Onde você ouviu essa palavra? – ela disse enquanto o pegava novamente.
         – Ela tem alguma coisa a ver com meu pai?
         Sua mãe se chocou no mesmo instante e ficou alguns segundos em silêncio, criando uma leve tensão no lugar.
         – Ron, você já está grande o suficiente para entender as coisas. Seu pai não era perfeito, e quando eu disse a ele que estava grávida, para se livrar da responsabilidade ele disse que fazia parte de um grupo de pessoas, ou algo assim, chamado Dion, e que por causa disso não poderia me ajudar a te criar, então ele foi embora e eu nunca mais o vi.
         – Entendo... – ele sussurrou.
         – Agora me diga onde você ouviu essa palavra.
         – Quando... Quando eu estava voltando pra casa um cara me falou que eu parecia com um homem que inventava estórias com essa palavra, Dion.
         – Esse homem pode conhecer seu pai, mas isso não quer dizer que ele seja confiável. Se você o ver novamente, não se aproxime dele.
         – Não se preocupe, eu não estou pensando em falar com ele novamente.
         Ela deu um pequeno sorriso e voltou a comer. Eles terminaram a refeição em silêncio, e enquanto a mãe de Ron lavava as vasilhas, ele foi para o seu quarto e fez seu dever de casa.
         No outro dia o garoto foi para a escola mais cedo, e quando entrou na sala de aula viu que Dimon já estava lá. Louco para conversar, ele se sentou na carteira ao lado do novato.
         – Eu conversei com minha mãe e... – ele começou a falar.
         – Conversaremos sobre isso depois. – Dimon o interrompeu.
         O garoto foi um pouco grosso, mas Ron viu que ele estava certo em falar aquilo, pois havia muitos alunos próximos a eles.
         Ele estava ansioso para tocar o sinal do intervalo, e isso apenas fez o tempo passar ainda mais lentamente. Quando finalmente ele chegou, os dois se reuniram em um canto do pátio da escola onde não havia ninguém.
         – Parece que o que você falou é verdade, antes de ir embora, meu pai disse a minha mãe que pertencia ao clã Dion. – disse Ron.
         – Finalmente você acreditou em mim. – Dimon disse com um sorriso orgulhoso.
         – E então, quando você vai começar a me treinar?
         – Eu não disse que vou te treinar.
         – Como assim?!
         – Eu disse que estou aqui para te treinar, mas se não for de meu interesse, eu não vou fazer nada.
         – O que eu preciso fazer para você me treinar?
         – Você sabe. – ele disse enquanto olhava com o canto do olho para o meio do pátio.
         Novamente outra roda havia se formado e, enquanto Dimon começava a andar na direção dela, Ron o seguia.
         Os três garotos de antes estavam batendo em outro aluno mais novo, mas dessa vez antes que ele se machucasse muito, Sarah entrou no meio da roda.
         – Parem com isso! Vocês não têm o direito de bater em ninguém! – ela disse.
         – Olha a menininha tentando dar uma de macho! – disse um dos alunos mais velhos. – Eu acho que ela também quer apanhar.
         Os três começaram a sorrir enquanto se aproximavam dela, encurralando-a.
         – Você realmente vai deixar aquela garota se machucar? – disse Dimon.
         – Eu nunca lutei em minha vida, eu não sei o que fazer.
         – Como eu disse antes, você não é uma pessoa comum, vá até lá que você saberá o que fazer. – Dimon disse com outro olhar sério. – Se você fizer isso, eu irei te treinar.
         Um imenso medo tomou conta de Ron, e enquanto ele pensava em sair dali, as palavras de Dimon ecoaram em sua cabeça. Ele era apenas um covarde que fugia de tudo, e se pelo menos naquele momento não mudasse de atitude, nunca seria capaz de se perdoar
         – Eu vou lá. – ele disse.
         Ron passou pelas pessoas da roda e chegou ao centro quando os garotos já estavam prestes a dar o primeiro golpe em Sarah. Se o que Dimon falou era verdade, se ele realmente fosse especial, não havia nada para ele temer, e pensando assim, o garoto passou a ver aqueles três grandalhões como apenas pequenas formigas.
         – Se vocês querem brigar, briguem comigo. – ele disse para os alunos.
         – O que você está fazendo? – disse Sarah.
         – Você já mostrou para eles que nós não os tememos, agora deixe o resto comigo!
         A garota deu um pequeno sorriso enquanto observava Ron olhando sério para os alunos e saiu do centro da roda.
         – Ameaçar bater em uma garota é a maior covardia de todas! Por causa disso, vocês vão levar a maior surra de suas vidas!
         Os três alunos começaram a rir e se aproximaram de Ron. Com grande confiança, o garoto deu um soco com toda sua força, mas antes que pudesse acertar alguém, um dos estudantes segurou sua mão e os outros aproveitaram para dar vários golpes em sua barriga.
         Quando eles cansaram de socá-lo, um dos garotos o empurrou, fazendo-o cair, e eles ficaram mais algum tempo chutando várias partes de seu corpo, até que Ron não tivesse nem mesmo força para gritar de dor.
         – Isso é para você aprender a nunca mais nos desafiar! – um dos alunos falou e os três se afastaram, fazendo com que as pessoas da roda também fossem para outras direções.
         Dimon foi até Ron e o ajudou a se levantar.
         – Agora sim eu vi um verdadeiro guerreiro. – ele disse.
         Ron olhou para ele com uma expressão furiosa, fazendo com que ele começasse a rir sem parar.
         – Você disse que eu conseguiria lutar! – disse o garoto.
         – Não, eu disse que você saberia o que fazer, e você fez o certo, protegeu uma pessoa que estava em perigo. – ele disse ainda com um sorriso.
         – E ao fazer isso eu quase morri!
         – Nem sempre a verdadeira vitória é vencer seus adversários. Ao impedir que eles batessem na Sarah, você já havia ganhado a batalha.
         – Isso quer dizer que você vai me treinar?
         – Sim, mas somente depois que você se recuperar dessa surra.
         O sinal tocou, mostrando que o intervalo havia acabado.
         – Vamos para a sala de aula. – Ron disse enquanto andava vagarosamente devido à dor que estava minando de todo seu corpo.
         “Acho que minha primeira impressão sobre esse garoto estava errada...” Dimon pensou enquanto o seguia.

Continua...
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4 comentários:

  1. Você escreve muito bem! E só tem 16 anos? Parabéns você tem talento e um futuro brilhante pela frente. Continue!

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  2. Olá Victor!

    Quero te agradecer pela leitura do meu conto no recanto das letras e seus comentarios, é sempre muito legal poder contar com leitores como você e fico mto inspirada qdo recebo essa atenção.

    Vc tem 16 anos?! Puxa, vc escreve mto bem, ta na linha certa viu, o seu conto me lembra o Ladrão de Raios, mito e realidade misturados, se bem que não sei se o seu tem a ver com mito (tenho que ver a segunda parte e descobrir do que se trata esse clã Dion, rs), mas tem o embalo certo para uma historia de aventura.

    Continue assim! Bjosss

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  3. Legal, gostei do seu texto. Continuarei lendo... Bjs! **Sutini**

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  4. que texto sem conteudo... uma bosta... perdi meu tempo...
    RECOMENDO QUE NAO PERCA O SEU,

    ------------------LIXOOO-----------------

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