Em um lugar deserto, onde rajadas de vento mais fortes que furacões correm por todos os lados, uma criatura caminha calmamente, como se aquilo não passasse de uma brisa. Diferente de quase todos os seres desta época, que se apropriam da escuridão para sobreviverem, este emana luz de seu corpo. A história desta criatura divina é longa, muito longa. O verdadeiro nome de sua raça é conhecido por poucos, mas em todos os lugares ela é chamada apenas por Filho das Estrelas. No passado eles eram idolatrados por muitos como se fossem deuses, mas agora sua raça foi esquecida, e transformada em apenas um mito.
Sozinho, a única coisa que lhe resta é uma missão, uma jornada que ele mesmo lhe impôs, e jurou nunca parar enquanto não cumpri-la. Por isso ele caminha, e caminha, e caminha... E nesse momento, o Filho das Estrelas está em um planeta esquecido por todos, com temperatura perto do zero absoluto, ventos que carregam uma terra azul escura, da mesma cor que o solo, e montanhas incrivelmente grandes, mas isso não o impede, nada o impede.
Seu corpo, por coincidência é semelhante ao de vocês, humanos primitivos, com dois braços, duas pernas e uma altura de um metro e oitenta. Ninguém consegue ver os detalhes de seu corpo, pois a luz emanada por ele é forte o suficiente para ofuscar qualquer visão, a única coisa possível de observar são seu olhos, duas esferas negras em sua face mais negras que a própria escuridão do espaço.
– Estamos quase chegando, Myra, deve ter um buraco por aqui. – diz a criatura.
Ah sim, estou falando tanto de meu eterno companheiro, que esqueci de me apresentar. Os Filhos das Estrelas são diferentes de todas as outras espécies do universo, pois eles nunca estão sozinhos, mas sempre acompanhados de uma espécie de “consciência”, um companheiro em sua mente, com quem ele pode conversar e compartilhar seus segredos. Essa sou eu, uma eterna companheira e amiga do Filho das Estrelas.
“Você está certo Zenai, deve estar logo à frente.” Eu disse em sua mente.
Nessa época infinitamente distante da de vocês, que lêem este texto, nós não necessitamos medir o tempo, pois vivemos tantos anos, que podemos senti-lo, segundo por segundo, mas para vocês, seres que mal nascem e já estão mortos, falarei sobre o tempo sempre que precisar.
Nós andamos durante algumas dezenas de horas até acharmos um enorme buraco no topo de uma montanha.
– Vou entrar. – Zenai me disse.
Ele pulou e caiu em queda livre em um lugar onde a gravidade chega a ser milhares de vezes mais forte que do planeta de vocês, até parar em um enorme túnel centenas de metros abaixo da superfície.
– São vários túneis, formando um labirinto. – disse Zenai.
“Eles estão bem abaixo de nós. Vamos acabar com isso logo.” Eu falei.
O Filho das Estrelas possui vários tipos diferentes de visão, a visão natural, como a de vocês, visão de calor, visão infravermelho, e outra desconhecida por vocês, que para não confundir suas pobres mentes, irei dizer apenas que permiti que ele enxergue no vácuo do espaço, onde não há luz nem ar.
Zenai andou vagarosamente pelo túnel até se deparar com uma bifurcação que levava a outro túnel na vertical.
– Esse parece ser um dos túneis principais, vou usá-lo para chegar onde eles estão.
Ele pulou e começou a cair, aumentando sua velocidade drasticamente, até que apontou suas mãos para o lado e fez um enorme flash de luz sair delas, criando impulso que o jogou para frente, o fazendo cair em uma das várias aberturas na parede do túnel vertical.
Ele rolou alguns metros pelo e se levantou. Seu corpo agora estava sujo da terra azul, mas no lugar de encobrir sua luz, agora cada uma dos grãos que o sujavam lançavam um brilho dourado, mostrando que é preciso muito mais que aquilo para apagar sua luz.
– Eles estão se reunindo, acho que me viram. – disse Zenai.
“Você vai esperá-los?” Perguntei.
– Não, caso essas sejam as criaturas que procuro, é melhor que eu não esteja cercado. Vou direto onde eles estão.
Zenai colocou suas mãos para trás e lançou duas chamas brancas, o fazendo voar rapidamente pelo túnel. Durante algum tempo sua velocidade apenas aumentou, até o momento em que ele as colocou para frente e aumentou as chamas, parando seu corpo e pousando suavemente.
– Eles estão pertos, é melhor ir andando a partir daqui. – sussurrou.
“Está bem, mas se eles forem capazes de enxergar sua luz, você será pego de qualquer jeito.”
Zenai andou evitando fazer qualquer barulho possível, e só parou quando se aproximou do final do túnel, onde havia um alargamento formando uma espécie de sala redonda.
Naquele momento o silêncio do lugar foi tomado por vários sons de patas andando rapidamente.
– Vou ver a aparência deles. – disse Zenai.
Ele apontou sua mão para frente e aumentou a intensidade de sua luz, iluminando todo o lugar. Desculpem-me, mas eu me esqueci de comentar sobre as chamas de Zenai. Cada ser vivo, não importa de onde seja, possui pelo menos uma habilidade para poder se defender quando atacado, e essa é a habilidade dos Filhos das Estrelas, o interior de seus corpos é inundado por uma energia bastante poderosa, e eles possuíam a capacidade de liberá-las na forma de luz ou chamas. Essa imensa quantidade de energia também é a responsável por fazer seu corpo brilhar.
Ao iluminar o local, ele viu dezenas de pequenas criaturas andando sobre as paredes do túnel. Elas possuíam cerca de um metro de comprimento e de altura, eram brancas como a neve, tinham seis pernas longas e finas, um corpo cilíndrico e cabeça pontuda, como uma cobra, com dois pares de antenas e uma boca lotada de dentes serrilhados.
– Não são eles, eu vou embora. – Zenai falou enquanto apagava a luz das suas mãos e se virava para sair daquele lugar.
“Espere! Você viu aquilo?” Eu falei no momento em que ele se preparava para voar.
“Acho que eu vi uma luz atrás daquelas criaturas.”
– Deve ter sido apenas um reflexo.
O Filho das Estrelas se virou e após se concentrar um pouco reparou na pequena luz vermelha piscando na mesma freqüência que o tique-taque de um relógio.
– Não deve ser nada demais. – ele disse enquanto se virava novamente.
“Pode nos ajudar em nossa busca.” Eu falei.
O Filho das Estrelas se virou e observou novamente a luz, que continuava piscando. Ele começou a andar em sua direção, mas algumas das criaturas pularam no seu rumo enquanto abriam suas bocas e mostravam seus dentes.
Antes que elas pudessem tocá-lo, Zenai começou a rodar seus braços enquanto lançava chamas de suas mãos, queimando várias criaturas e matando-as no mesmo instante.
Mesmo com esse incrível ataque, ele não conseguiu deter todas, e algumas morderam seu corpo, fincando seus dentes em sua pele. Quanto mais o Filho das Estrelas andava, mais criaturas o mordiam, até o momento em que havia tantas, que era possível observar apenas a luz branca saindo dos pequenos espaços entre elas.
Zenai continuou andando até ficar próximo da pequena luz, e então fez todo o seu corpo arder em chamas, transformando em cinzas todas as criaturas que o atacaram. Após ter se livrado delas, ele reparou que mais estavam se aproximando, e para impedi-las ele lançou rajadas de fogo nas paredes e no chão do túnel, esquentando a terra e as impedindo de se aproximarem.
Mesmo com todas aquelas mordidas, seu corpo não havia recebido nenhum ferimento, pois embora a textura de sua pele seja bem macia, para perfurá-la é preciso uma força tremenda.
Ao se aproximar, ele iluminou o local e revelou uma armadura humanóide caída, e também reparou que a luz vermelha vinha de um botão em seu tórax.
Curioso para saber do que se tratava, ele apertou o botão e no mesmo instante uma luz azulada começou a ser liberada por um visor na cabeça da roupa metálica, a fazendo se mover, se levantando.
A armadura possuía cerca de um metro e noventa de altura, com peças negras e inteiras, que aparentavam serem bastante resistentes, na cabeça, tórax, braços, pernas e costas, e pequenas placas de cor prata nas suas juntas, como no pescoço, ombros e joelhos. Ao ver a armadura, imediatamente Zenai reconheceu a qual espécie ela pertencia.
Prestem muita atenção nesse momento meus queridos Humanos, pois esse é o futuro de vocês, o ser dentro daquela roupa são vocês em um futuro muito distante. Sendo um dos primeiros seres vivos racionais a existirem, os Humanos fazem partes dos chamados Seres Primordiais, pois foram um dos primeiros a viajarem pelo universo, explorando outros planetas com vida.
Conhecidos como Destruidores de Planetas, durante muito tempo os Humanos exploraram a riqueza de diversos planetas ricos em matéria-prima até deixá-los estéreis, mas o verdadeiro talento desta espécie sempre foi na área da tecnologia, criando máquinas para serem usadas nas mais diversas situações.
Essa primitiva espécie é um grande exemplo de sobrevivência, pois desde suas origens, ela não sofreu muitas transformações, e como seria impossível ela sobreviver no mundo atual, graças ao seu dom de inventar máquinas, os Humanos criaram armaduras que satisfazem todas suas necessidades e que os permite sobreviver em quase todos os ambientes.
A necessidade dessas armaduras é tão grande, que apenas em locais com gravidade e temperatura controlada artificialmente, eles podem retirá-las, e por isso são raros os seres que conseguem ver a forma natural de seus corpos.
Durante algum tempo o Humano fez alguns movimentos estranhos, como se estivesse testando a flexibilidade de sua armadura, e apenas após ver que tudo estava nos conformes passou a prestar atenção no Filho das Estrelas.
– Você fala Urik? – ele perguntou com a voz um pouco trêmula, mostrando que sua armadura devia estar com pouca energia.
A Urik, ou Língua Universal se preferir, foi criada quando o mundo ainda era primitivo, e os primeiros seres que arriscaram sair de seus planetas, para explorar outros que também possuíam vida, tiveram um grande problema na hora da comunicação com outras espécies. Por isso a Urik, uma língua de fácil aprendizado e que praticamente todos os seres vivos racionais são capazes de utilizar, foi criada, para facilitar a comunicação entre as espécies alienígenas.
Com o tempo, a Urik foi implantada em quase todos os lugares civilizados, mas o universo é um lugar grande, e não é raro encontrar alguém que nunca sequer ouviu falar nesse nome.
Este texto foi escrito originalmente em Urik, mas foi traduzido para esta língua para melhor compreensão de vocês.
– Sim. Como você veio parar aqui? – disse Zenai.
– Eu sou um caçador de recompensas, e vim nesse planeta procurando um criminoso. Eu achei que ele estava nessa caverna, mas acho que estava errado.
O Filho das Estrelas observou que as paredes do túnel haviam esfriado, e as pequenas criaturas já estavam se aproximando.
– Vamos sair daqui. – ele disse.
Zenai lançou várias chamas e criou a propulsão necessária para começar a voar e passar pelas criaturas. O Humano também começou a voar, mas diferente do Filho das Estrelas, de seus pés e mãos saiam uma espécie de onda vermelha transparente, criando a propulsão para tirá-lo do chão.
– Eu já tentei sair daqui voando, mas é inútil, este lugar está infestado desses bichos, e eles não vão nos deixar ir muito longe. – o humano falou já próximo de Zenai, controlando sua distância para não ser atingido pelas chamas brancas.
Zenai reparou que a alguns metros as criaturas estavam se aglomerando, criando uma barreira que nem mesmo ele seria capaz de atravessar utilizando apenas a força.
O Filho das estrelas apagou as chamas de uma de suas mãos e aumentou as da outra, deixando-a tão forte que quase acertou o Humano. Em seguida colocou seu braço para frente e voltou a lançar suas chamas, mas no lugar de deixá-las finas para criar propulsão, ele as espalhou por todo o túnel, queimando tudo a sua frente.
Finos gritos de dor ecoaram todo aquele lugar, e apenas quando se cessaram Zenai parou de lançar o fogo. A densa escuridão de antes foi tomada pelo brilho emitido pelas paredes do túnel, que estavam vermelhas e brilhantes como brasa.
Enquanto se aproximavam para a saída daquele lugar, ainda era possível ver diversas criaturas cobertas de fogo nas paredes, algumas mortas, outras correndo em uma tentativa desesperada de sobreviver.
Ao sair dos túneis, Zenai pensou em pousar, mas o Humano continuou voando, e o Filho das Estrelas o acompanhou. Eles ficaram no ar durante alguns minutos até chegaram no pico de uma enorme montanha onde havia uma nave espacial. Os dois pousaram.
– Essa é minha nave. Obrigado por me salvar, se eu ficasse mais algum tempo naquele lugar, minha energia se esgotaria e eu não seria capaz de sobreviver. – disse o Humano.
– Está bem. Agora eu vou embora. – disse Zenai.
O Humano apertou um botão em seu braço, fazendo uma tampa se abrir na roupa metálica, revelando uma série de botões e uma pequena tela acima deles, e começou a apertar alguns deles.
– O que é isso? Algum tipo de erro? – ele disse.
– O que aconteceu? – o Filho das Estrelas disse.
– Aqui está falando que minha nave está sem energia.
Ela era uma nave intergaláctica fina e comprida, branca com vários detalhes azuis, e estava erguida por quatro apoios. O Humano se aproximou dela, abriu uma pequena tampa escondida na parte de baixo, estendeu um cabo de seu braço e o conectou em um pequeno buraco, fazendo outra tampa bem maior se abrir, revelando mais botões e telas.
– Droga! A Matéria Negra não está aqui! Alguém a roubou!
– Matéria Negra? O que é isso?
– Você não sabe o que é Matéria Negra? É uma pedra extremamente rica em energia. Eu a uso para alimentar minha nave.
– Como você sabe que ela foi roubada?
– O Sensor de segurança havia me mandado um sinal de alerta. – disse o Humano. – Droga! Lá na caverna eu coloquei minha armadura em modo de economia de energia, e com isso fiquei no estado de hibernação. Se eu não estivesse inconsciente, eu teria visto o sinal! – ele disse nervoso.
– O que você vai fazer agora?
– A Matéria Negra possui um dispositivo de rastreamento.
Ele mexeu novamente nos botões em seu braço.
– Ela está do outro lado desse planeta. Nenhum ser vivo conseguiria percorrer essa distância tão rapidamente sem o auxilio de uma nave. O Criminoso que estou procurando deve tê-la roubado. – ele disse enquanto continuava apertando os botões em seu braço. – Minha armadura não será capaz nem mesmo de ir até a Matéria Negra, e eu ainda terei que voltar para a nave depois. Eu não vou conseguir!
Ele olhou para o Filho das Estrelas e o fitou por alguns segundos, esperando que ele dissesse alguma coisa.
– Espero que você tenha sorte em sua jornada. – disse Zenai.
Ele colocou suas mãos para baixo, lançou uma enorme quantidade de chamas, iluminando tudo em sua volta e, como um raio, voou em linha reta para cima, saindo da orbita do planeta e mergulhando no espaço sideral.
Finalmente, esta é a cena que faz jus a todas as histórias sobre os Filhos das Estrelas. Na negritude do espaço, Zenai soltou chamas por todo seu corpo e liberou toda sua luz, ficando semelhante ao que vocês chamam de Estrela Cadente. Em longas distâncias, aquele pequeno ponto de luz, engolido pelas trevas, deveria estar sendo visto por muitos seres, lhe dando esperanças de ainda existe uma luz no mundo.
Para vocês que estão imaginando essa maravilhosa cena e estão cheios de dúvidas, vou responder a maior delas. Sim, os Filhos das Estrelas são capazes de sobreviver no vácuo, o que os tornam ainda mais perfeitos.
Quando estamos sob o silêncio do espaço, nossa comunicação se torna muito mais forte, e quando converso com Zenai ele pode, literalmente, ouvir minha voz, e eu deixo de ser apenas um pensamento em sua cabeça.
– Por que você fez isso? – eu falei.
– Fiz o quê? – Zenai falou em sua mente.
– Você abandonou o Humano.
– Eu não o abandonei, eu salvei a sua vida.
– Mas não adiantou nada. Você o ouviu falando que não possui energia suficiente para pegar a Matéria Negra. Você deve voltar e ajudá-lo.
– Você se lembra da promessa que fez naquele dia?
O Filho das Estrelas parou de voar no mesmo instante, apagando a luz de suas chamas e praticamente desaparecendo no universo.
– Eu prometi que nunca mais iria abandonar alguém. – ele falou.
– E agora você irá deixar aquela criatura morrer?
– Eu já estou voando há algum tempo, mesmo se voltar, ele já deve estar quase morto.
– Então devemos parar de falar e voar o mais rápido possível!
Zenai pensou mais um pouco, se virou e voltou a lançar suas chamas, voltando ao planeta. Pouco tempo depois ele se aproximou da nave e, vendo que o Humano não estava lá, começou a sobrevoar o céu do planeta, até encontrar com sua visão de calor uma pequena criatura sendo rolada pelos fortes ventos, então ele pousou perto dela. Era o Humano, novamente sua armadura estava desligada e apenas a pequena luz vermelha piscava em seu peito.
– Temos que pensar em um jeito de recarregar essa armadura. – disse Zenai.
“Acho que ele só pode fazer isso em sua nave. Temos que ajudá-lo a recuperar essa Matéria Negra. Vamos sobrevoar o planeta e ver se encontramos os criminosos que o Humano falou. Se eles são inteligentes, devem possuir várias máquinas, então basta acharmos algum lugar onde está sendo gerado muito calor.”
– Vou usar minha velocidade máxima para achá-los mais rápido.
Novamente ele lançou as chamas, esquentando todo o chão a sua volta e o deixando vermelho como brasa, e quando já havia chamas suficientes, ele voou até encontrar um local onde era emanada uma grande quantidade de calor.
Zenai pousou e viu uma portinhola no chão, que provavelmente levaria ao esconderijo dos ladrões. O Filho das Estrelas se aproximou, usou as chamas para derreter o metal até abrir um buraco e entrou, caindo por um túnel comprido até chegar em uma sala lotada de criaturas. Elas eram verdes, se sustentavam por duas pernas, possuíam várias verrugas grandes espalhadas por sua pele, uma grande corcunda em suas costas, olhos esbugalhados e uma ventosa como boca abaixo deles. Elas não possuíam nariz ou braços, mas tinham finos tentáculos, como chicotes, espalhados por seus corpos.
Nenhuma delas usava roupas, mas todas possuíam um cinto em sua cintura cheio de armas.
– Incrrrusos! – um deles gritou.
Eles possuíam um sotaque muito difícil de entender ao falarem Urik. Ao ver o Filho das Estrelas, todas as criaturas enfiaram seus tentáculos nos cintos, retirando suas armas. Elas eram esferas brancas com um orifício para a penetração dos tentáculos e outro maior, de onde saíram vários raios de luz avermelhados que acertaram o Filho das Estrelas, mas em vão, pois eles não causavam nenhum ferimento em seu corpo.
– Não estou aqui para machucá-los, apenas me entreguem a Matéria Negra! – disse Zenai.
– Acrrirem para matar! – outro também gritou.
Cada vez mais criaturas se aproximavam, sacavam suas armas e começavam a atirar, mas o Filho das Estrelas não ligava para elas, ele estava usando sua visão de calor para procurar o objeto.
Após ver apenas mais das criaturas nos vários níveis daquela instalação, ele pensou que seria impossível encontrar a Matéria Negra sem machucar aqueles alienígenas, mas enquanto olhava abaixo de seus pés, ele viu o que parecia ser uma esfera, que emitia mais calor que todas as criaturas ou máquinas.
– Você acha que é aquilo? – disse Zenai.
“Não custa tentar.” Eu falei.
Sem pensar duas vezes, o Filho das Estrelas começou a emanar as belas chamas brancas e como um raio passou por todas as criaturas, empurrando-as e as jogando nas paredes de metal.
Os corredores do lugar eram finos e pequenos, por isso ele tinha muita dificuldade em manobrar nas curvas sem bater, além disso mais das criaturas estavam em seu caminho, e ele as jogava para trás com uma força tremenda.
Em poucos minutos ele chegou na porta da sala onde estava a esfera.
– Vou derreter a porta. – disse.
Ele fez sua mão brilhar e a encostou no metal a sua frente, mas no mesmo instante uma enorme quantidade raios azuis saíram da porta e percorreram seu corpo, fazendo-o gritar de dor e desmaiar.
Quando nós acordamos, estávamos presos por várias chapas de metal a uma mesa, com diversos aparelhos pregados no corpo de Zenai. Nós olhamos em todas as direções, e vimos outra daquelas criaturas encarando o Filho das Estrelas.
– Goscrrou da segurança do meu cofre? A elecrricidade deixa qualquer criacrrura inconsciencrre. – ele disse. – Você me deixou impressionado, essa armadura brilhancrre é realmente impressionancrre, eu nunca havia viscrro nada assim em crroda a minha vida. Mas isso é inúcrril agora, esses aparelhos desacrrivam qualquer aparelho crrecnológico, o que significa que você não pode fazer nada para escapar daqui.
Ignorando tudo que a criatura dizia, Zenai observava todo o lugar procurando pela esfera usando a visão de calor, até que a viu em outra sala no mesmo andar.
O Filho das Estrelas fez todo o seu corpo brilhar, aquecendo as chapas que o prendiam e derretendo-as. Ele levantou facilmente, fazendo a criatura ficar paralisada de medo, andou até ela e o agarrou pelo pescoço.
Zenai foi até a porta de onde estava, uma espécie de laboratório com vários aparelhos tecnológicos espalhados por todos os lados. A criatura a abriu e os dois foram até a sala da esfera.
– Abra essa porta! – ele gritou enquanto jogava a criatura no chão.
– Cofre, abrir. – ele disse.
No mesmo instante ouve um enorme barulho de mecanismos se movendo e a porta se abriu. Zenai entrou, e no meio de vários estranhos objetos organizados em cima de mesas, havia uma esfera totalmente negra que flutuava como se não existisse gravidade naquele lugar. Era ela que emitia a enorme quantidade de calor.
– Deve ser isso, é a única coisa negra nesse lugar. – disse o Filho das Estrelas.
Ele pegou a esfera e novamente lançou as chamas de suas mãos, voando rapidamente até sair daquele lugar. Zenai ainda sobrevoou um pouco o planeta até achar o Humano, então ele o pegou e o levou até a nave. Ao chegar lá, ele apertou o botão que piscava na armadura e o homem acordou.
– Você pegou a Matéria Negra? – a voz dele estava ainda pior, mostrando que sua energia devia estar no fim.
– Temos que ser rápidos, a energia de minha armadura pode acabar a qualquer momento.
Ele pegou a esfera negra, a colocou no motor da nave, em seguida retirou um cabo da armadura e enfiou em uma pequena entrada, fazendo uma escada se desprender da parte de baixo da nave e se estender até o chão.
Eles a subiram e chegaram em seu interior. Dentro da nave havia vários aparelhos enormes posicionados nos cantos, varias luzes brancas no teto que acenderam quando eles entraram, e na frente tinha um enorme vidro, onde estavam duas cadeiras envolvidas pelo centro de controle da nave, onde havia centenas de botões, alavancas e telas.
O humano andou até uma das máquinas nos cantos, uma enorme e quadrada, com um buraco redondo no centro e vários botões ao seu redor.
– Computador, checar temperatura e gravidade. – ele disse.
– Temperatura e gravidade padrão. – uma voz computadorizada ecoou por toda a nave.
– Remover armadura. – ele disse novamente.
A roupa de metal a sua volta começou a se desmontar, se compactando e deixando cada vez mais seu corpo a mostra, até sobrar apenas um bracelete em seu braço esquerdo.
O homem estava nu, possuía todos os músculos de seu corpo definidos, a pele branca como a neve, olhos azuis tão claros que brilhavam, sem nenhum cabelo em seu corpo, apenas belos fios tão brancos em sua cabeça, que também lançavam um fraco brilho.
Ele retirou o bracelete e o colocou no buraco da máquina para ser recarregado.
– Espere um pouco. Eu já volto. – disse em seguida.
Ele andou até uma escada em espiral que havia no final da nave e levava tanto para baixo quanto para cima. Ele subiu para outro andar na nave, onde estavam os quartos e banheiro. Pouco tempo depois o homem voltou, usando uma bermuda larga e uma camiseta sem manga.
– Você pode retirar essa armadura. Se quiser posso recarregá-la também.
– Eu não estou usando armadura, este é meu corpo. – disse Zenai.
– Você está falando sério? Nossa! Tudo aquilo que você fez era seu próprio corpo?! Eu nunca vi nenhum ser vivo como você antes.
– Existem poucos de minha espécie. – ele disse evitando olhar o Humano.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.
– Agora que você está a salvo, eu já vou embora. – disse o Filho das Estrelas.
– Meu radar não captou nenhuma nave nesse planeta. Você vive nele?
– Não, eu não preciso de nave para viajar pelo espaço.
– Incrivel! Mas deve ser bem muito cansativo fazer uma viajem interplanetária sem a ajuda de alguma nave. Permita-me lhe dar pelo menos uma carona como agradecimento por salvar minha vida.
– Não se preocupe, não é tão cansativo, e além disso eu consigo viajar a uma velocidade próxima a da luz.
– Há! Há! Há! Minha nave possui um Motor de Dobra de última geração que me permite viajar até dez vezes mais que a velocidade da luz. Agora sim eu preciso te dar uma carona! Basta dizer para onde você quer ir, e eu te levarei.
– E quanto ao criminoso que você estava atrás?
– Ainda vai demorar um bom tempo para minha armadura recarregar, e como sabe que estamos aqui, ele deve sair desse planeta o mais rápido possível, ou seja, e não tenho nada para fazer aqui.
– De qualquer jeito eu não tenho destino certo, eu viajo por vários planetas procurando... Uma coisa.
– Não possui destino certo? Desse jeito você nunca irá encontrar o que procura. Se você realmente quer encontrar isso, você deve ir a um Farol, lá é onde todas as informações do universo estão concentradas em um só lugar.
– O que é um Farol? Um computador?
– Você nunca foi em um Farol? Então é melhor guardar a surpresa para quando chegarmos lá.
O humano correu e pulou em uma das cadeiras na parte dianteira da nave, começando a apertar vários botões e mexer em algumas alavancas.
– Computador, nós temos uma nova trajetória, vamos para o Farol mais próximo. – disse o humano.
– Trajetória confirmada. – disse a voz robotizada.
– Aliás, meu nome é Neon.
– O meu é Zenai. – disse o Filho das Estrelas.
Rapidamente a nave já havia saído da órbita do planeta e desaparecido no espaço.