terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dion 02

A Verdadeira Realidade





     Duas semanas se passaram desde que Ron conheceu Dimon, e só agora ele estava totalmente curado de seus ferimentos.

     – Parece que você está bem melhor. – o novato de cabelos negros disse assim que o garoto entrou na sala de aula. – O seu treinamento vai começar hoje.
     – Onde vai ser? – Ron disse enquanto se sentava em sua carteira.
     Dimon lhe entregou um pedaço de papel.
     – Me encontre depois da escola nesse endereço. – ele falou em seguida.
     Quando o intervalo entre as aulas chegou, Ron ficou perto de Dimon, mas eles ficaram em silêncio até que Sarah se aproximou deles.
     – Aquela pomada ajudou a diminuir a dor na sua perna? – ela disse.
     – Sim, obrigado. – Ron disse enquanto retirava um pequeno tubo de seu bolso. – Se não fosse por ela, eu ainda não estaria andando direito.
     Ele a entregou para a garota, que também a colocou em seu bolso.
     – Se precisar de alguma coisa, pode me dizer. – ela disse sorrindo
     Ele disse sim com a cabeça e a garota se afastou dos dois enquanto acenava.
     – Ela tem conversado bastante com você. – disse Dimon.
     – A Sarah? Ela estava apenas me emprestando uma pomada para a dor em minha perna. – Ron disse enquanto seu rosto ficava levemente vermelho.
     – Achei que sua perna tinha melhorado há uma semana.
     – Você... Você está enganado, foi as minhas costas que pararam de doer semana passada.
     – Acho que você está certo. – Dimon disse com um sorriso.
     Após acabar a última aula, Ron estava saindo da escola quando reparou que nunca via Dimon sair junto com os outros alunos. Isso o intrigou, mas não muito, pois não achou que era algo preocupante.
     Após chegar em sua casa, o garoto almoçou, descansou um pouco e disse a sua mãe que iria a um grupo de estudo organizado por algumas pessoas de sua sala. Após ela concordar, ele foi a pé até o endereço que Dimon lhe entregou. Por sorte o lugar não era muito longe, e em apenas meia hora ele já havia chegado na rua descrita no papel.
     Era um lugar horrível, com lixo jogado em todos os lugares, casas e prédios pichados e cheios de buracos e várias pessoas sentadas no chão, andando em direções aleatórias, ou deitadas na calçada, como se estivessem desmaiadas. Todas elas estavam com as roupas surradas e, os que não estavam conversando, estavam fumando algo que Ron nunca havia visto.
     Enquanto cruzava a rua, todos a sua volta passavam a prestar atenção apenas nele. Forçando para ignorá-los, Ron começou a andar cada vez mais rápido, até que ouviu um estalo embaixo de seu pé e parou assustado. Ele havia pisado em uma enorme barata, espalhando uma gosma pelo asfalto e toda a sola de seu tênis.
     Aquilo fez o garoto querer voltar correndo para sua casa no mesmo instante, mas ele já estava tão perto que resolveu continuar. Após andar mais alguns metros, finalmente chegou ao endereço que Dimon lhe entregou, era um prédio de quatro andares com as palavras “Hotel F...” pintadas na fachada. Ele só não conseguiu ler o resto devido a várias pichações que tampavam o resto das letras.
     Após passar pela porta, Ron se assustou ao ver que lá dentro também estava cheio de pessoas, e as que não estavam sentadas usando drogas, estavam em pé vendendo-as. Enquanto ele se adentrava no lugar, um homem magro, com barba e cabelo mal cortados e roupas rasgadas se aproximou dele.
     – Ei, moleque! Vai querer o quê?!
     O garoto ficou paralisado de medo no mesmo instante e não conseguiu fazer nada a não ser encarar o homem.
     – Eu perguntei o que você vai querer! – ele falou nervoso.
     – Eu... Eu não quero nada. – enfim falou.
     Ron continuou andando, ignorando a expressão furiosa do homem, e após passar por vários cômodos e ver apenas mais pessoas desconhecidas, pensou que Dimon havia apenas lhe pregado uma peça e resolveu ir embora, mas após se deparar com uma escada de concreto totalmente destruída, ficou curioso e foi até ela.
     Não havia sobrado nenhum degrau, todos eles haviam se transformado em entulho, deixando um vazio que levava até o próximo andar. Enquanto observava aquilo, o garoto olhou para cima e viu uma perna estirada no vão.
     – Tem alguém aí?! – ele gritou.
     O rosto de Dimon surgiu no andar de cima.
     – Você demorou. – ele falou.
     Ron olhou para trás e viu que algumas pessoas o estavam observando.
     – Me deixe subir. – ele falou com a voz um pouco mais alta que um sussurro.
     Dimon se levantou, se afastou e, após um som metálico ecoar por todo o hotel, jogou uma escada de corda para o garoto.
     Após usá-la para subir, Ron percebeu que as pontas da escada estavam amarradas em duas belas estacas negras presas ao chão. Ele deduziu que o som metálico havia vindo delas.
     Com uma força impressionante, Dimon as retirou do chão e as colocou em elásticos presos em sua calça. Somente naquele momento Ron reparou na roupa que o garoto estava usando, uma calça, camisa, sapatos e faixa amarrada em sua cintura, todas negras e semelhantes às usadas por ninjas em filmes de ação.
     – Por que você está usando essa roupa? – Ron perguntou.
     – Ela é confortável e me dá flexibilidade.
     Ron a achou bonita e no mesmo instante passou a desejar uma para si.
     – Nós vamos subir até o ultimo andar. – Dimon disse enquanto começava a andar.
     Enquanto o seguia, Ron observava o lugar. Havia um corredor com várias portas que levavam aos quartos e no final existia outro vão com vários destroços do que já foi uma escada.
     – Como nós vamos chegar ao segundo andar? É impossível. – Ron disse assim que eles chegaram ao final do corredor.
     Ignorando-o, Dimon pegou as estacas, se afastou alguns metros e começou a correr em linha reta, mas antes que se chocasse com a parede a sua frente, conseguiu correr três passos sobre ela, subindo como se a gravidade não existisse, e fincou as estacas nela em seguida, levantando seu corpo até conseguir ficar em pé em cima delas.
     Agora metade de seu corpo já estava no segundo andar, por isso foi fácil subir até ele e depois se deitar no chão para retirar as estacas da parede. Ron ficou abismado com aqueles incríveis movimentos.
     – Eu esqueci a escada. Por favor, pegue ela para mim. – Dimon disse enquanto tirava a poeira de sua roupa.
     Ele se lembrou que eles a haviam deixado perto do outro vão e correu para buscá-la. Somente enquanto a estava pegando, sua mente clareou e Ron parou para pensar em tudo o que acabou de presenciar. Quando Dimon estava subindo para o segundo andar, ele conseguiu fincar aquelas estacas em uma parede de concreto usando suas mãos, algo que em toda sua vida ele considerou ser impossível!
     Na verdade, tudo que ele viu e ouviu vindo de Dimon era surreal, e mesmo assim ele não se espantou com nenhuma delas, na verdade, é como se elas fossem mais reais do que tudo em que ele já acreditou.
“Talvez seja porque eu nunca me encaixei no mundo real” Ron pensou.
Ao chegar onde Dimon estava, ele jogou a escada para o garoto e pouco tempo depois já estava no segundo andar.
Eles repetiram aquele mesmo processo até chegarem ao ultimo andar, fazendo com que Ron ficasse ainda mais admirado com a destreza e força de Dimon. Os dois foram até um dos quartos daquele andar, um dos poucos que ainda possuíam móveis, um tapete encardido no chão e um pequeno guarda-roupa sem portas e cheio de buracos no canto da parede.
– Antes de começarmos, eu vou responder qualquer pergunta sua. – Dimon disse enquanto se sentava no tapete e cruzava suas pernas.
Ron sentiu um pouco de receio de se sentar devido à grande quantidade de sujeira no tapete, mas se sentiu na obrigação de fazer aquilo.
– Pode perguntar qualquer coisa. – disse o garoto.
– Como você quer que eu acredite em tudo que você fala? Tudo o que você disse ou fez até agora não parece ter sido real, e sim uma grande mentira. – ele disse após se sentar
– Na verdade, é exatamente o contrário, tudo que você viveu até esse momento foi uma grande mentira.
– Como assim?
– O mundo não é o que já foi, ele ficou mais fraco. Você já deve ter visto em algum lugar que o ser humano é capaz de usar apenas 10% de seu corpo, mas isso não é verdade, no passado, através de treinamentos árduos, vários guerreiros conseguiam aumentar essa capacidade, conseguindo habilidades nunca vistas antes, mas estas técnicas eram exclusivas para poucos, e por isso elas começaram a se perder no tempo. Alguns desses guerreiros, vendo que cada vez menos pessoas as conheciam, criaram irmandades, ou se preferir, clãs para que os seus membros pudessem aprendê-las e aprimorá-las. Um deles era Emrin Dion, o criador do clã Dion. – Dimon deu uma leve pausa. – Por isso eu digo que o que você viveu até hoje foi uma mentira, pois desde pequeno você foi ensinado a acreditar que essa é a capacidade máxima do ser humano, quando na verdade é exatamente o contrário.
Ron ouviu tudo atentamente, e mesmo duvidando um pouco daquela história, acabou aceitando-a.
– Mais alguma pergunta? – disse Dimon.
– Acho que não.
– Neste caso, vamos começar o treinamento.
Os dois se levantaram, Dimon retirou o tapete, o jogou no rumo da parede e tateou o chão até afundar um pequeno pedaço dele como se fosse um botão, fazendo a parede ao lado se abrir como uma porta, revelando diversos tipos de armas.
– Eu só havia visto isso em filmes! – Ron disse impressionado.
– Eu irei te ensinar a usar todas elas, e quando você as dominar, eu irei determinar com qual você possui maior habilidade. – ele disse ignorando o comentário do garoto.
– Por quê?
– Quando você entrar no clã, uma arma será forjada especialmente para você, e sou eu, seu tutor, quem decidirá qual será ela.
Na parede havia vários tipos de espadas, lanças, escudos, adagas e outras armas que Ron já havia visto, mas não conhecia o nome delas.
– Por que não há nenhuma arma de fogo?
– Armas de fogo não mostram a força dos homens, e sim as suas fraquezas.
Ron ficou um tempo em silêncio tentando entender o significado da frase.
– Qual arma você ganhou quando entrou no clã? – por fim falou.
Dimon deu um sorriso e pressionou o canto inferior da parede onde estavam as armas, apertando outro botão e fazendo uma porta menor se abrir abaixo dele. Lá havia duas adagas, ambas dentro de belas bainhas negras com a imagem de um pégaso vermelho em cada uma.
Dimon as colocou na sua cintura dentro de dois suportes feitos especialmente para elas e as sacou, mostrando-as para o garoto. Ambas possuíam o punho azul escuro com uma lâmina negra que lançava um belo, mas ao mesmo tempo medonho brilho que arrepiou todos os cabelos dos braços de Ron.
– Essas são minhas armas, elas foram feitas com as pedras preciosas mais resistentes do mundo, as tornando inquebráveis e capazes de cortar qualquer coisa. Graças a elas eu ganhei o nome de Chaos Diamond.
– Que nome massa! Eu também quero um assim!
– Quando entrar no clã você também receberá o seu.
Dimon fechou as duas portas, fazendo a parede ficar como antes.
– Nós não vamos pegar uma delas?
– Por enquanto não, você terá outros treinamentos até poder usá-las. – disse Dimon.
– Então por que viemos até aqui? – disse Ron.
– Apenas para eu te mostrar onde estão as armas. Seu verdadeiro treinamento vai ser no terraço. – ele disse enquanto apontava para cima.
– Como nós vamos fazer para chegar lá? Correndo pelo muro do hotel?
– O quê? Não, eu não destruí a escada que leva até lá. Achei que não havia necessidade.
– É claro que não! Você só precisava destruir a primeira escada para impedir que outras pessoas subissem até aqui.
Dimon ficou alguns segundos em silêncio.
– Isso não importa agora. Vamos para o terraço. – ele falou enquanto começava a andar.
“Parece que ele não gosta de estar errado” Ron pensou enquanto o seguia.
Eles subiram uma escada no final do corredor do andar até chegar a uma porta. Dimon a abriu e eles entraram no terraço. Era um lugar totalmente plano e vazio, apenas com um pequeno cubículo onde ficava a porta que eles acabaram de atravessar.
– O que eu tenho que fazer? – Ron disse enquanto se espreguiçava, alongando boa parte de seu corpo.
– Primeiro vamos treinar seu condicionamento físico. Você pode começar dando voltas no terraço correndo.
– Correr?! Que tipo de treinamento é esse?
– Você irá demorar muito mais para aprender artes marciais se não estiver acostumado com exercícios físicos, e correr é a atividade ideal para isso.
Ainda um pouco sério, Ron começou a correr vagarosamente, quase andando.
– Isso é o mais rápido que você consegue? – disse Dimon.
– Educação Física nunca foi minha matéria preferida. – ele disse já um pouco sem fôlego.
“Acho que isso vai demorar um pouco” – Dimon disse enquanto se sentava escorado na porta.
Continua...
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sábado, 2 de outubro de 2010

Dion 01


O Começo




A noite estava escura, tão escura que era difícil notar a presença de um homem parado no meio da rua apenas olhando para o portão da casa a sua frente. Durante algum tempo ele ficou imóvel, até que outra pessoa dobrou a esquina e se aproximou lentamente.
         – Esta é a casa? – ele perguntou.
         – Sim. – o homem parado respondeu.
         – Qual o nome do garoto?
         – Ron.
         – Você quer que eu diga a ele que você é seu pai?
         – Não. É possível que eu não volte de minha jornada, e caso isso aconteça, será melhor se ele nunca tiver me conhecido.
         – Você tem certeza que quer colocá-lo no clã? Isso pode tirar qualquer chance de ele ter uma vida normal.
         – É inevitável que algum dia alguém descubra quem ele realmente é, e caso isso aconteça, ele precisa estar preparado.
         – Amanhã será o primeiro dia de meu filho na escola onde Ron estuda. Ele estará encarregado de treiná-lo.
         – Pensei que você seria o tutor dele.
         – Você não conhece esses adolescentes? Eles aprendem melhor com gente de sua própria idade.
         – Parece que você já pensou em tudo, nesse caso acho que já vou indo. Ainda tenho um longo caminho pela frente.
         – Se as coisas ficarem perigosas, seja prudente e desista desta missão.
         – Não se preocupe comigo. Adeus.
         – Adeus...
         Eles começaram a andar em direções opostas até se perderem de vista.
         Na manhã do dia seguinte o despertador do quarto de Ron tocou, mas, como sempre, ele não acordou e sua mãe precisou ir até lá. Seu quarto nunca estava arrumado, e por isso ela precisava passar por vários obstáculos, dentre eles sapatos e roupas sujas, até se aproximar da cama do garoto.
         – Acorde meu filho, faltam apenas quinze minutos para sua aula começar.
         O garoto levantou assustado no mesmo instante. Ele tinha 14 anos, cursava o primeiro ano do ensino médio, possuía a pele branca, cabelos e olhos castanhos.
         – Droga! Não posso chegar atrasado! Preciso entregar um trabalho na primeira aula. – Ron disse.
         Ele correu para o banheiro, tomou um rápido banho, vestiu seu uniforme às pressas, pegou sua mochila e foi para o portão de sua casa.
         – Não vai tomar café? – sua mãe gritou.
         – Não dá tempo! – o garoto gritou enquanto saia.
         Ele correu com todas suas forças por várias ruas até chegar a uma escola de tamanho médio. Ao entrar em sua sala, ele viu que todos os alunos já estavam sentados e o professor estava dando aula, e, timidamente, foi até sua carteira e começou a anotar em seu caderno o que estava escrito no quadro negro.
         A aula passou lentamente, e apenas quando ela já estava acabando a professora pediu para que todos colocassem seus trabalhos em sua mesa. Em poucos segundos um monte de folhas se formou em cima dela, e quando ela estava prestes a continuar o que estava ensinando antes, o diretor da escola surgiu na porta da sala.
          A professora saiu para conversar com ele e voltou pouco tempo depois acompanhada de um garoto um pouco mais alto que Ron. Ele possuía cabelos negros, olhos castanhos, pele morena clara e usava uma estranha faixa negra em seu braço esquerdo.
         – Este é o novo colega de vocês, o seu nome é Dimon. – a professora disse.
         Ele andou calmamente pela sala até se sentar na cadeira ao lado de Ron.
         – Bem vindo. – o garoto disse.
         – Obrigado, Ron. – disse Dimon.
         – Como você sabe meu nome?!
         – Está escrito em seu uniforme. – ele disse com um pequeno sorriso.
         Mesmo sabendo que aquilo era verdade, Ron deu uma rápida espiada em sua roupa.
         – É verdade. – ele disse com um pouco de vergonha.
         Eles foram interrompidos pela professora, que deu uma bronca por estarem conversando.
         Com o passar do tempo outros professores entraram na sala e ensinaram diferentes tipos de matéria, até que o sinal do intervalo tocou e os alunos puderam descansar um pouco.
         Como estava com um pouco de fome, Ron resolveu comprar algo na lanchonete da escola, mas foi interrompido por Dimon, que se aproximou para falar com ele.
         – Aqui as aulas são sempre difíceis assim? – ele disse.
         – Com o tempo você se acostuma. – disse Ron.
         Eles foram interrompidos por um barulho próximo a eles. Vários alunos estavam se reunindo em uma roda enquanto gritavam sem parar. Dimon andou até lá para ver o que estava acontecendo e Ron o acompanhou.
         No centro da roda havia quatro garotos, um mais novo e três mais velhos. O menor estava levando golpes dos maiores em várias partes de seu corpo.
         – Por que ninguém o ajuda? – disse Dimon.
         – Quem for lá só vai apanhar também. Eles são do último ano. – Ron disse enquanto apontava para os agressores.
         – Você não se enfurece vendo isso?! Você deveria ser quem mais se sente incomodado!
         – Você não me ouviu?! Se eu fosse lá, iria apenas apanhar também!
         – Já chega, vou acabar com isso.
         Ele começou a passar por todos os alunos até chegar ao centro da roda.
         – Vocês, parem com isso agora! – ele disse.
         Eles passaram a prestar atenção apenas no Dimon, deixando o outro aluno correr.
         – Você também quer apanhar? – disse um dos garotos mais velhos.
         – Os únicos aqui que vão apanhar são vocês!
         Os alunos começaram a andar na direção de Dimon quando um professor se aproximou deles.
         – O que está acontecendo aqui? – ele perguntou.
         No mesmo instante todos os alunos que formavam a roda se dispersaram, deixando apenas Ron, Dimon e os outros.
         – Não está acontecendo nada. – um dos garotos disse.
         – Vão para suas salas. O sinal vai tocar a qualquer instante.
         Os três alunos olharam com uma expressão maléfica para Dimon e se afastaram, assim como o professor.
         – Estou decepcionado com você Ron. Você deveria ser a última pessoa nesse lugar capaz de ficar parado após ver aquilo.
         – Do que você está falando?
         Duas garotas se aproximaram, fazendo com que a atenção deles se focasse apenas nelas.
         – Vocês foram muito corajosos. Ninguém nunca enfrentou aqueles caras antes. – uma delas disse.
         – Se todos os enfrentassem, eles não iriam mais ameaçar ninguém. – disse Dimon.
         – Eu nunca havia pensado dessa forma, mas você tem razão, a partir de agora eu também não irei permitir que eles batam em mais ninguém – ela disse.
         Dimon concordou movimentando levemente sua cabeça.
         O sinal do fim do intervalo tocou e todos os alunos começaram a voltar para suas salas.
         – Nós temos que ir. – a garota disse e as duas se afastaram.
         – Aquela era a Sarah, a garota mais bonita da nossa sala. – disse Ron. – Ela nunca tinha falado comigo antes.
         – Por que ela iria falar com um covarde? – Dimon disse com um olhar sério.
         No mesmo instante Ron se enfureceu.
         – Eu não sei quem você pensa que é, mas você não tem o direito de me ofender desta maneira! Eu nem te conheço direito!
         Ele se afastou e voltou com passos rápidos até a sua sala na esperança de não ver Dimon novamente, mas foi inútil, pois o garoto se sentou ao seu lado de novo.
         Durante todas as outras aulas Ron evitou olhar para o lado, e quando o ultimo sinal tocou ele foi um dos primeiros a sair da escola.
         Quando Dimon o chamou de covarde, aquilo o atingiu, pois ele sabia que era verdade. Em toda sua vida, ele nunca teve coragem de enfrentar ninguém. Sempre que algo era exigido dele, alguma desculpa era inventada para acobertar seu medo.
         Enquanto voltava para sua casa, vários pensamentos passavam pela sua cabeça, mas todos eles se dispersaram quando ele estava andando por uma rua deserta e percebeu que um barulho de passos o estava acompanhando.
         Assustado, ele olhou para trás e viu Dimon parado, fitando-o.
         – Por que você está me seguindo? – Ron gritou.
         – Preciso conversar com você. – ele também gritou.
         – Você acha que eu sou burro de conversar com um louco como você?!
         Ele tentou se virar e continuar seu trajeto, mas no mesmo instante se desequilibrou enquanto dava uns passos para trás. Dimon estava poucos centímetros a sua frente.
         – Isso é impossível. – ele sussurrou.
         Ron olhou para trás e confirmou que o garoto realmente não estava mais lá.
         – Eu fui transferido para aquela escola por um motivo Ron, te treinar.
         – Me treinar?!
         – Você não é uma pessoa comum. Assim como eu, você é descendente do grande Emrin Dion, o criador do clã Dion.
         – O quê?!
         – Eu sei tudo sobre a sua vida, desde o dia que você chorou na segunda série enquanto apresentava uma peça de teatro até o último mês, quando pela primeira vez em três anos você conseguiu tirar uma nota maior que oito na escola.
         – Você é algum tipo de perseguidor? Se você ameaçar minha família, vou te denunciar para a polícia!
         – Você já se perguntou o motivo de nunca ter conhecido seu pai? Ele nunca foi te ver porque é um importante membro de nosso clã, e se alguém soubesse que você é seu filho, muitos iriam tentar te matar.
         – Você conhece meu pai?! Então me diga quem é ele, ou onde ele está!
         – Me desculpe, mas eu não possuo esta informação.
         – Então por que você está falando isso tudo?!
         – Apenas para que você acredite em mim.
         – Por que estou falando com você? Você apenas pesquisou sobre a minha vida na internet, ou algo assim, e agora está fazendo uma piada!
         – Pergunte para sua mãe se ela já ouviu falar no nome Dion e veja a sua reação, só então você verá que o que eu digo é verdade.
          Dimon começou a andar lentamente para a direção oposta a de Ron.
         – Te vejo amanhã. – ele disse enquanto acenava com a mão.
         Poucos segundos depois ele virou em uma esquina e desapareceu da visão de Ron.
         Embora o garoto estivesse achando que aquilo era apenas uma piada de mau gosto, ver Dimon falando de seu pai o deixou curioso, por isso ele decidiu que iria falar com sua mãe e saber se aquilo era verdade.
Após chegar a sua casa, Ron notou que o almoço já estava pronto, e como estava com muita fome, apenas jogou sua mochila em seu quarto e correu para cozinha.
         Enquanto ele começava a comer, sua mãe se aproximou segurando um prato cheio de comida e se sentou ao lado dele.
         – Como foi sua aula? – ela perguntou.
         – Boa, um novato começou a estudar hoje. – ele disse.
         – No meio do semestre? Isso não acontece com muita frequência.
         – Sim. Mãe, você já ouviu falar na palavra Dion?
         No mesmo instante ela deixou o garfo que segurava cair dentro do prato, fazendo alguns grãos de arroz voar para fora dele.
         – Onde você ouviu essa palavra? – ela disse enquanto o pegava novamente.
         – Ela tem alguma coisa a ver com meu pai?
         Sua mãe se chocou no mesmo instante e ficou alguns segundos em silêncio, criando uma leve tensão no lugar.
         – Ron, você já está grande o suficiente para entender as coisas. Seu pai não era perfeito, e quando eu disse a ele que estava grávida, para se livrar da responsabilidade ele disse que fazia parte de um grupo de pessoas, ou algo assim, chamado Dion, e que por causa disso não poderia me ajudar a te criar, então ele foi embora e eu nunca mais o vi.
         – Entendo... – ele sussurrou.
         – Agora me diga onde você ouviu essa palavra.
         – Quando... Quando eu estava voltando pra casa um cara me falou que eu parecia com um homem que inventava estórias com essa palavra, Dion.
         – Esse homem pode conhecer seu pai, mas isso não quer dizer que ele seja confiável. Se você o ver novamente, não se aproxime dele.
         – Não se preocupe, eu não estou pensando em falar com ele novamente.
         Ela deu um pequeno sorriso e voltou a comer. Eles terminaram a refeição em silêncio, e enquanto a mãe de Ron lavava as vasilhas, ele foi para o seu quarto e fez seu dever de casa.
         No outro dia o garoto foi para a escola mais cedo, e quando entrou na sala de aula viu que Dimon já estava lá. Louco para conversar, ele se sentou na carteira ao lado do novato.
         – Eu conversei com minha mãe e... – ele começou a falar.
         – Conversaremos sobre isso depois. – Dimon o interrompeu.
         O garoto foi um pouco grosso, mas Ron viu que ele estava certo em falar aquilo, pois havia muitos alunos próximos a eles.
         Ele estava ansioso para tocar o sinal do intervalo, e isso apenas fez o tempo passar ainda mais lentamente. Quando finalmente ele chegou, os dois se reuniram em um canto do pátio da escola onde não havia ninguém.
         – Parece que o que você falou é verdade, antes de ir embora, meu pai disse a minha mãe que pertencia ao clã Dion. – disse Ron.
         – Finalmente você acreditou em mim. – Dimon disse com um sorriso orgulhoso.
         – E então, quando você vai começar a me treinar?
         – Eu não disse que vou te treinar.
         – Como assim?!
         – Eu disse que estou aqui para te treinar, mas se não for de meu interesse, eu não vou fazer nada.
         – O que eu preciso fazer para você me treinar?
         – Você sabe. – ele disse enquanto olhava com o canto do olho para o meio do pátio.
         Novamente outra roda havia se formado e, enquanto Dimon começava a andar na direção dela, Ron o seguia.
         Os três garotos de antes estavam batendo em outro aluno mais novo, mas dessa vez antes que ele se machucasse muito, Sarah entrou no meio da roda.
         – Parem com isso! Vocês não têm o direito de bater em ninguém! – ela disse.
         – Olha a menininha tentando dar uma de macho! – disse um dos alunos mais velhos. – Eu acho que ela também quer apanhar.
         Os três começaram a sorrir enquanto se aproximavam dela, encurralando-a.
         – Você realmente vai deixar aquela garota se machucar? – disse Dimon.
         – Eu nunca lutei em minha vida, eu não sei o que fazer.
         – Como eu disse antes, você não é uma pessoa comum, vá até lá que você saberá o que fazer. – Dimon disse com outro olhar sério. – Se você fizer isso, eu irei te treinar.
         Um imenso medo tomou conta de Ron, e enquanto ele pensava em sair dali, as palavras de Dimon ecoaram em sua cabeça. Ele era apenas um covarde que fugia de tudo, e se pelo menos naquele momento não mudasse de atitude, nunca seria capaz de se perdoar
         – Eu vou lá. – ele disse.
         Ron passou pelas pessoas da roda e chegou ao centro quando os garotos já estavam prestes a dar o primeiro golpe em Sarah. Se o que Dimon falou era verdade, se ele realmente fosse especial, não havia nada para ele temer, e pensando assim, o garoto passou a ver aqueles três grandalhões como apenas pequenas formigas.
         – Se vocês querem brigar, briguem comigo. – ele disse para os alunos.
         – O que você está fazendo? – disse Sarah.
         – Você já mostrou para eles que nós não os tememos, agora deixe o resto comigo!
         A garota deu um pequeno sorriso enquanto observava Ron olhando sério para os alunos e saiu do centro da roda.
         – Ameaçar bater em uma garota é a maior covardia de todas! Por causa disso, vocês vão levar a maior surra de suas vidas!
         Os três alunos começaram a rir e se aproximaram de Ron. Com grande confiança, o garoto deu um soco com toda sua força, mas antes que pudesse acertar alguém, um dos estudantes segurou sua mão e os outros aproveitaram para dar vários golpes em sua barriga.
         Quando eles cansaram de socá-lo, um dos garotos o empurrou, fazendo-o cair, e eles ficaram mais algum tempo chutando várias partes de seu corpo, até que Ron não tivesse nem mesmo força para gritar de dor.
         – Isso é para você aprender a nunca mais nos desafiar! – um dos alunos falou e os três se afastaram, fazendo com que as pessoas da roda também fossem para outras direções.
         Dimon foi até Ron e o ajudou a se levantar.
         – Agora sim eu vi um verdadeiro guerreiro. – ele disse.
         Ron olhou para ele com uma expressão furiosa, fazendo com que ele começasse a rir sem parar.
         – Você disse que eu conseguiria lutar! – disse o garoto.
         – Não, eu disse que você saberia o que fazer, e você fez o certo, protegeu uma pessoa que estava em perigo. – ele disse ainda com um sorriso.
         – E ao fazer isso eu quase morri!
         – Nem sempre a verdadeira vitória é vencer seus adversários. Ao impedir que eles batessem na Sarah, você já havia ganhado a batalha.
         – Isso quer dizer que você vai me treinar?
         – Sim, mas somente depois que você se recuperar dessa surra.
         O sinal tocou, mostrando que o intervalo havia acabado.
         – Vamos para a sala de aula. – Ron disse enquanto andava vagarosamente devido à dor que estava minando de todo seu corpo.
         “Acho que minha primeira impressão sobre esse garoto estava errada...” Dimon pensou enquanto o seguia.

Continua...
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