Duas semanas se passaram desde que Ron conheceu Dimon, e só agora ele estava totalmente curado de seus ferimentos.
– Parece que você está bem melhor. – o novato de cabelos negros disse assim que o garoto entrou na sala de aula. – O seu treinamento vai começar hoje.
– Onde vai ser? – Ron disse enquanto se sentava em sua carteira.
Dimon lhe entregou um pedaço de papel.
– Me encontre depois da escola nesse endereço. – ele falou em seguida.
Quando o intervalo entre as aulas chegou, Ron ficou perto de Dimon, mas eles ficaram em silêncio até que Sarah se aproximou deles.
– Aquela pomada ajudou a diminuir a dor na sua perna? – ela disse.
– Sim, obrigado. – Ron disse enquanto retirava um pequeno tubo de seu bolso. – Se não fosse por ela, eu ainda não estaria andando direito.
Ele a entregou para a garota, que também a colocou em seu bolso.
– Se precisar de alguma coisa, pode me dizer. – ela disse sorrindo
Ele disse sim com a cabeça e a garota se afastou dos dois enquanto acenava.
– Ela tem conversado bastante com você. – disse Dimon.
– A Sarah? Ela estava apenas me emprestando uma pomada para a dor em minha perna. – Ron disse enquanto seu rosto ficava levemente vermelho.
– Achei que sua perna tinha melhorado há uma semana.
– Você... Você está enganado, foi as minhas costas que pararam de doer semana passada.
– Acho que você está certo. – Dimon disse com um sorriso.
Após acabar a última aula, Ron estava saindo da escola quando reparou que nunca via Dimon sair junto com os outros alunos. Isso o intrigou, mas não muito, pois não achou que era algo preocupante.
Após chegar em sua casa, o garoto almoçou, descansou um pouco e disse a sua mãe que iria a um grupo de estudo organizado por algumas pessoas de sua sala. Após ela concordar, ele foi a pé até o endereço que Dimon lhe entregou. Por sorte o lugar não era muito longe, e em apenas meia hora ele já havia chegado na rua descrita no papel.
Era um lugar horrível, com lixo jogado em todos os lugares, casas e prédios pichados e cheios de buracos e várias pessoas sentadas no chão, andando em direções aleatórias, ou deitadas na calçada, como se estivessem desmaiadas. Todas elas estavam com as roupas surradas e, os que não estavam conversando, estavam fumando algo que Ron nunca havia visto.
Enquanto cruzava a rua, todos a sua volta passavam a prestar atenção apenas nele. Forçando para ignorá-los, Ron começou a andar cada vez mais rápido, até que ouviu um estalo embaixo de seu pé e parou assustado. Ele havia pisado em uma enorme barata, espalhando uma gosma pelo asfalto e toda a sola de seu tênis.
Aquilo fez o garoto querer voltar correndo para sua casa no mesmo instante, mas ele já estava tão perto que resolveu continuar. Após andar mais alguns metros, finalmente chegou ao endereço que Dimon lhe entregou, era um prédio de quatro andares com as palavras “Hotel F...” pintadas na fachada. Ele só não conseguiu ler o resto devido a várias pichações que tampavam o resto das letras.
Após passar pela porta, Ron se assustou ao ver que lá dentro também estava cheio de pessoas, e as que não estavam sentadas usando drogas, estavam em pé vendendo-as. Enquanto ele se adentrava no lugar, um homem magro, com barba e cabelo mal cortados e roupas rasgadas se aproximou dele.
– Ei, moleque! Vai querer o quê?!
O garoto ficou paralisado de medo no mesmo instante e não conseguiu fazer nada a não ser encarar o homem.
– Eu perguntei o que você vai querer! – ele falou nervoso.
– Eu... Eu não quero nada. – enfim falou.
Ron continuou andando, ignorando a expressão furiosa do homem, e após passar por vários cômodos e ver apenas mais pessoas desconhecidas, pensou que Dimon havia apenas lhe pregado uma peça e resolveu ir embora, mas após se deparar com uma escada de concreto totalmente destruída, ficou curioso e foi até ela.
Não havia sobrado nenhum degrau, todos eles haviam se transformado em entulho, deixando um vazio que levava até o próximo andar. Enquanto observava aquilo, o garoto olhou para cima e viu uma perna estirada no vão.
– Tem alguém aí?! – ele gritou.
O rosto de Dimon surgiu no andar de cima.
– Você demorou. – ele falou.
Ron olhou para trás e viu que algumas pessoas o estavam observando.
– Me deixe subir. – ele falou com a voz um pouco mais alta que um sussurro.
Dimon se levantou, se afastou e, após um som metálico ecoar por todo o hotel, jogou uma escada de corda para o garoto.
Após usá-la para subir, Ron percebeu que as pontas da escada estavam amarradas em duas belas estacas negras presas ao chão. Ele deduziu que o som metálico havia vindo delas.
Com uma força impressionante, Dimon as retirou do chão e as colocou em elásticos presos em sua calça. Somente naquele momento Ron reparou na roupa que o garoto estava usando, uma calça, camisa, sapatos e faixa amarrada em sua cintura, todas negras e semelhantes às usadas por ninjas em filmes de ação.
– Por que você está usando essa roupa? – Ron perguntou.
– Ela é confortável e me dá flexibilidade.
Ron a achou bonita e no mesmo instante passou a desejar uma para si.
– Nós vamos subir até o ultimo andar. – Dimon disse enquanto começava a andar.
Enquanto o seguia, Ron observava o lugar. Havia um corredor com várias portas que levavam aos quartos e no final existia outro vão com vários destroços do que já foi uma escada.
– Como nós vamos chegar ao segundo andar? É impossível. – Ron disse assim que eles chegaram ao final do corredor.
Ignorando-o, Dimon pegou as estacas, se afastou alguns metros e começou a correr em linha reta, mas antes que se chocasse com a parede a sua frente, conseguiu correr três passos sobre ela, subindo como se a gravidade não existisse, e fincou as estacas nela em seguida, levantando seu corpo até conseguir ficar em pé em cima delas.
Agora metade de seu corpo já estava no segundo andar, por isso foi fácil subir até ele e depois se deitar no chão para retirar as estacas da parede. Ron ficou abismado com aqueles incríveis movimentos.
– Eu esqueci a escada. Por favor, pegue ela para mim. – Dimon disse enquanto tirava a poeira de sua roupa.
Ele se lembrou que eles a haviam deixado perto do outro vão e correu para buscá-la. Somente enquanto a estava pegando, sua mente clareou e Ron parou para pensar em tudo o que acabou de presenciar. Quando Dimon estava subindo para o segundo andar, ele conseguiu fincar aquelas estacas em uma parede de concreto usando suas mãos, algo que em toda sua vida ele considerou ser impossível!
Na verdade, tudo que ele viu e ouviu vindo de Dimon era surreal, e mesmo assim ele não se espantou com nenhuma delas, na verdade, é como se elas fossem mais reais do que tudo em que ele já acreditou.
“Talvez seja porque eu nunca me encaixei no mundo real” Ron pensou.
Ao chegar onde Dimon estava, ele jogou a escada para o garoto e pouco tempo depois já estava no segundo andar.
Eles repetiram aquele mesmo processo até chegarem ao ultimo andar, fazendo com que Ron ficasse ainda mais admirado com a destreza e força de Dimon. Os dois foram até um dos quartos daquele andar, um dos poucos que ainda possuíam móveis, um tapete encardido no chão e um pequeno guarda-roupa sem portas e cheio de buracos no canto da parede.
– Antes de começarmos, eu vou responder qualquer pergunta sua. – Dimon disse enquanto se sentava no tapete e cruzava suas pernas.
Ron sentiu um pouco de receio de se sentar devido à grande quantidade de sujeira no tapete, mas se sentiu na obrigação de fazer aquilo.
– Pode perguntar qualquer coisa. – disse o garoto.
– Como você quer que eu acredite em tudo que você fala? Tudo o que você disse ou fez até agora não parece ter sido real, e sim uma grande mentira. – ele disse após se sentar
– Na verdade, é exatamente o contrário, tudo que você viveu até esse momento foi uma grande mentira.
– Como assim?
– O mundo não é o que já foi, ele ficou mais fraco. Você já deve ter visto em algum lugar que o ser humano é capaz de usar apenas 10% de seu corpo, mas isso não é verdade, no passado, através de treinamentos árduos, vários guerreiros conseguiam aumentar essa capacidade, conseguindo habilidades nunca vistas antes, mas estas técnicas eram exclusivas para poucos, e por isso elas começaram a se perder no tempo. Alguns desses guerreiros, vendo que cada vez menos pessoas as conheciam, criaram irmandades, ou se preferir, clãs para que os seus membros pudessem aprendê-las e aprimorá-las. Um deles era Emrin Dion, o criador do clã Dion. – Dimon deu uma leve pausa. – Por isso eu digo que o que você viveu até hoje foi uma mentira, pois desde pequeno você foi ensinado a acreditar que essa é a capacidade máxima do ser humano, quando na verdade é exatamente o contrário.
Ron ouviu tudo atentamente, e mesmo duvidando um pouco daquela história, acabou aceitando-a.
– Mais alguma pergunta? – disse Dimon.
– Acho que não.
– Neste caso, vamos começar o treinamento.
Os dois se levantaram, Dimon retirou o tapete, o jogou no rumo da parede e tateou o chão até afundar um pequeno pedaço dele como se fosse um botão, fazendo a parede ao lado se abrir como uma porta, revelando diversos tipos de armas.
– Eu só havia visto isso em filmes! – Ron disse impressionado.
– Eu irei te ensinar a usar todas elas, e quando você as dominar, eu irei determinar com qual você possui maior habilidade. – ele disse ignorando o comentário do garoto.
– Por quê?
– Quando você entrar no clã, uma arma será forjada especialmente para você, e sou eu, seu tutor, quem decidirá qual será ela.
Na parede havia vários tipos de espadas, lanças, escudos, adagas e outras armas que Ron já havia visto, mas não conhecia o nome delas.
– Por que não há nenhuma arma de fogo?
– Armas de fogo não mostram a força dos homens, e sim as suas fraquezas.
Ron ficou um tempo em silêncio tentando entender o significado da frase.
– Qual arma você ganhou quando entrou no clã? – por fim falou.
Dimon deu um sorriso e pressionou o canto inferior da parede onde estavam as armas, apertando outro botão e fazendo uma porta menor se abrir abaixo dele. Lá havia duas adagas, ambas dentro de belas bainhas negras com a imagem de um pégaso vermelho em cada uma.
Dimon as colocou na sua cintura dentro de dois suportes feitos especialmente para elas e as sacou, mostrando-as para o garoto. Ambas possuíam o punho azul escuro com uma lâmina negra que lançava um belo, mas ao mesmo tempo medonho brilho que arrepiou todos os cabelos dos braços de Ron.
– Essas são minhas armas, elas foram feitas com as pedras preciosas mais resistentes do mundo, as tornando inquebráveis e capazes de cortar qualquer coisa. Graças a elas eu ganhei o nome de Chaos Diamond.
– Que nome massa! Eu também quero um assim!
– Quando entrar no clã você também receberá o seu.
Dimon fechou as duas portas, fazendo a parede ficar como antes.
– Nós não vamos pegar uma delas?
– Por enquanto não, você terá outros treinamentos até poder usá-las. – disse Dimon.
– Então por que viemos até aqui? – disse Ron.
– Apenas para eu te mostrar onde estão as armas. Seu verdadeiro treinamento vai ser no terraço. – ele disse enquanto apontava para cima.
– Como nós vamos fazer para chegar lá? Correndo pelo muro do hotel?
– O quê? Não, eu não destruí a escada que leva até lá. Achei que não havia necessidade.
– É claro que não! Você só precisava destruir a primeira escada para impedir que outras pessoas subissem até aqui.
Dimon ficou alguns segundos em silêncio.
– Isso não importa agora. Vamos para o terraço. – ele falou enquanto começava a andar.
“Parece que ele não gosta de estar errado” Ron pensou enquanto o seguia.
Eles subiram uma escada no final do corredor do andar até chegar a uma porta. Dimon a abriu e eles entraram no terraço. Era um lugar totalmente plano e vazio, apenas com um pequeno cubículo onde ficava a porta que eles acabaram de atravessar.
– O que eu tenho que fazer? – Ron disse enquanto se espreguiçava, alongando boa parte de seu corpo.
– Primeiro vamos treinar seu condicionamento físico. Você pode começar dando voltas no terraço correndo.
– Correr?! Que tipo de treinamento é esse?
– Você irá demorar muito mais para aprender artes marciais se não estiver acostumado com exercícios físicos, e correr é a atividade ideal para isso.
Ainda um pouco sério, Ron começou a correr vagarosamente, quase andando.
– Isso é o mais rápido que você consegue? – disse Dimon.
– Educação Física nunca foi minha matéria preferida. – ele disse já um pouco sem fôlego.
“Acho que isso vai demorar um pouco” – Dimon disse enquanto se sentava escorado na porta.
Continua...

